Monja Coen e Ayahuasca

“MUITO DENTRO DE MIM MESMA”
A monja Coen, fundadora da Comunidade Zen Budista, conta como foi sua experiência com o chá ayahuasca

“Um membro da minha comunidade fazia parte um grupo religioso que tomava chá de ayahuasca e me convidou para uma reunião festiva de Natal, onde se podiam levar convidados de fora. Convidei duas alunas minhas e fomos as três. Era um sítio pertinho aqui de São Paulo, nós chegamos já era noite. Fomos recebidos por uma senhora quer era líder deste grupo. Sentia-se muito a presença dela, a força dela como liderança.Havia muitas crianças, adolescentes, famílias, e isso me surpreendeu. Entramos numa sala muito grande, muito cheia de pessoas, e nos deram copinhos com um chá – um chá cor de chá mesmo. Primeiro passaram umas frutas, cada um pegou um pedacinho e depois todos juntos comungamos deste chá, bebemos juntos. Me lembra muito o que nós fazemos no budismo, como as nossas cerimônias de alimentação, de chá. Então isso foi muito bonito pra mim, né?

Coen-xistência

Coen-xistência: a monja budista aprovou a experiência com o chá

Nos sentamos e havia muitas músicas que eram muito agradáveis, mas a minha preocupação era à líder do grupo. Como eu sou líder de uma comunidade, me interessava ver como ela liderava. Como era Natal era tudo relacionado a Jesus. Havia uma fotografia de um senhor [Mestre Gabriel] da Amazônia, alguma coisa assim, que seria o fundador desta ordem, um senhor de bigodinho assim. O nome dele era falado algumas vezes e agradecido, como nós fazemos na nossa linhagem para os nossos monges fundadores.

Algumas pessoas vomitavam e eu já tinha ouvido falar sobre isso, eu tinha ficado um pouco preocupada. Uma das meninas que foi comigo começou a passar mal; até que conseguimos acalmá-la e colocá-la numa cama ali num cantinho e ela dormiu. Mas me deu muita impressão de que ela ficou incomodada com o que estava acontecendo por um profundo desconhecimento. Essa moça sempre passava o Natal comigo e eu falei ‘então vamos juntas’, não te largar sozinha na noite de Natal. E foi um erro, ela não estava preparada. A outra não, ficou sentadinha ali do meu lado.

Uma hora eu me senti mal, tive um momento que eu falei ‘nossa’ e levantei. Eu sou muito metida, cheguei dizendo ‘não eu não vou vomitar, imagina’. Mas não adianta: tá todo mundo vomitando do seu lado, é muito difícil, né? Eu vomitei um pouco, não foi muito não. E aí eu fiquei do lado de fora… e isto foi agradável.

Me perguntaram se eu não tive visões. Na verdade não, não que eu me lembre. Senti uma sensação de vastidão e conexão com a natureza, de bem estar com ela e com todos os seus elementos. Fiquei pensando: porque que nós fazemos isto numa sala fechada, por que isto não é feito ao ar livre? Porque o ar e a natureza iam te abrir os braços! Talvez porque fosse frio, né? Há aqueles que dizem isto não é bom, isto não presta, isto tira do estado normal de consciência. O que é o estado normal de consciência? O que seria nossa consciência verdadeira?

Passado isso eu voltei para a sala. A música continuava, já era mais no final da noite, estavam em um momento de perguntas. As pessoas pediam licença e diziam: ‘mestra eu posso fazer uma pergunta’. Se ela dissesse sim, fazia, se ela dissesse não, não fazia. E aí ela vai respondendo. E esta parte para mim foi mais interessante, porque parece um pouquinho com o que nós fazemos no templo budista, quando o mestre que tem mais sabedoria pode conduzir os novatos na vida. Comentei com o pessoa lá que isso de passar ensinamentos pode ser feito em qualquer religião. O que eu notei, dentro da minha visão que é um pouco parcial porque eu só vi um dia, é que a mestra conduziu todo este ensinamento dentro da visão cristã. A palavra Jesus é usada inúmeras vezes. Era noite de Natal, eu não sei se é sempre assim.

Na viagem de volta, a minha amiga que passou mal estava muito bravinha. Ficava no banco de trás dizendo ‘nossa que absurdo, alguém podia morrer numa cerimônia dessas’. A outra não, estava meio assim sem saber. E pra mim foi uma coisa muito pé-no-chão.

Até comentei com o meu superior, que se interessou e ficou de ir. Estava no meu universo, naquilo que eu conheço. Eu estava ligada, não desligada. Não sei se isto é assim pra todo mundo, mas me deu uma sensação de estar muito em mim mesma, e muito capaz de fazer coisas. Foi muito interessante.”